segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Ndar aka Saint Louis du Senegal





A cidade de Saint Louis à qual os Senegaleses chamam Ndar (que é o seu nome em Wolof) fica junto à foz do rio Senegal e é constituida por três partes. No centro, no meio do rio fica a Ilha de Ndar com dois quilómetros de comprimento por 350 metros de largura.
Junto ao oceano ficam os bairros de pescadores de Ndar Toute e Guet Ndar na "Langue de Barbarie" uma longa e estreita peninsula de areia que separa o rio Senegal do Oceano ao longo de 25 km. Do lado oposto junto ao continente fica o bairro de Sor.
Uma ponte em metal, a ponte Faidherbe liga Ndar ao bairro de Sor e ao continente e outra ponte (em tempos foram duas mas uma delas caiu há uns anos) liga Ndar à Langue de Barbarie.
Ponte Faidherbe
Aspecto da Ponte Faidherbe vista de perto. Esta ponte, a mais importante da cidade liga o centro (Ilha de Ndar) ao continente. Como é visivel na fotografia a ponte precisa de reparação urgentemente, é atravessada por camiões mas os pilares desfazem-se em ferrugem.

Calcula-se que St. Louis possa ter existido muito antes de os europeus lá terem chegado, no entanto foi fundada oficialmente no ano de 1659 por comerciantes franceses. Foi a primeira povoação francesa permanente na África Ocidental que escolheram esta localização pelo seu bom porto à entrada do rio Senegal que constítuia uma via priveligiada de comércio com as regiões do interior do continente.
Durante muito tempo St. Louis foi a cidade mais importante do Senegal e a capital da África Ocidental francesa. Na ilha de Ndar fica o "Quartier historique" que ilustra bem a importância e riqueza da cidade nesses tempos e está repleto de casas coloniais, velhos armazens e edifícios da administração colonial francesa. O património está bem preservado e constituí sem dúvida o conjunto arquitetónico colonial mais significativo do Senegal, motivo mais que suficiente para ser considerado, desde o ano 2000, "património da humanidade" pela Unesco.

Acordei a meio da manhã e fui passear pelas ruas da ilha de Ndar com três objectivos, ver a cidade, encontrar (urgentemente) um sitio para comer (tudo o que tinha comido no dia anterior tinham sido 2 sandes de carne com cebola), e encontrar outro hostel ( o hostel onde estava não era minimamente recomendavel).
O dia estava luminoso, o céu azul e soprava uma brisa do mar, as ruas da ilha eram calmas, com poucos carros, haviam muitas árvores e sombras e as casas coloniais seduziam com o charme das suas varandas e jardins. Nas praças passeavam cabras mastigando erva e pedaços de lixo e familias descansavam deitadas sobre toalhas na relva. Alcançando a margem da ilha que nunca estava longe tinham-se belas vistas sobre o rio para o continente ou para a peninsula de barbarie. As águas do rio eram turvas da cor da terra, carregadas de sedimentos e as margens da ilha estavam cheias de lixo que era varrido das ruas para o rio.
St Louis du Senegal

Deambulando pelas ruas não vi onde comprar comida, estavamos no Ramadão e este aparentemente é cumprido com mais rigor no norte do Senegal. Recorrendo ao meu Lonely Planet encontrei um restaurante perto da ponta norte da ilha, o preço era mais caro do que vinha assinalado no guia, mas não muito mau. Por um pouco mais podia pedir um menu com bebida e sobremesa, que decidi aproveitar. A comida não era má, também não era muito saborosa, mas eu já lambia os beiços na expectativa da "salada de fruta tropical" que tinha pedido como sobremesa, imaginando pedaços doces de manga e ananás ... quando chegou, que desilusão, o sabor era deslavado, era uma salada de fruta de conserva e conserva de pouca qualidade!
A seguir ao almoço fui procurar outro hostel onde ficar e não demorei tempo a encontrar um com melhores condições.
Depois lembrei-me que devia telefonar ao Daouda, o couchsurfer a quem eu tinha pedido alojamento em St. Louis para lhe dizer que já estava na cidade.

Ele estava por perto e apareceu para irmos dar uma volta na cidade.
Foi algo estranha a volta que dei com o Daounda, ele quis vir comigo, mas quase não conversava enquanto passeávamos, ele falava bem francês mas ainda assim a comunicação não era muito fácil, os sítios que me levou a visitar não pareciam ser os mais interessantes e fiquei a pensar que se calhar visitava a cidade melhor sozinho.
Apesar do Daounda me responder apenas com sim/não e frases curtas fiquei a saber que trabalhava numa associação que ajudava os talibe.
A palavra talibe significa estudantes em árabe. Em geral são rapazes que são entregues pelos seus pais aos marabouts para que estes os alfabetizem e lhes ensinem o Corão e os fundamentos da religião islâmica. Os marabouts acolhem as crianças normalmente com idades entre 6 e 10 e tomam conta delas até por volta dos 16. Os marabouts são responsáveis pela subsistência dos talibe a seu cuidado e para terem dinheiro para alimentar os miúdos fazem-nos pedir esmola pelas ruas. Alguns marabouts asseguram o bem estar dos talibe postos ao seu cuidado e instruem-nos adequadamente, outros negligênciam ou maltratam os talibe e enriquecem à sua custa com o dinheiro das esmolas recolhidas.

A meio da tarde foi quase um alivio quando o Daounda disse que tinha assuntos para tratar e que tinha que se ir embora. Convidou-me para ir jantar a casa dele e para ficar lá alojado. Aceitei o convite para jantar mas recusei ficar lá com a desculpa que já tinha a mochila no hostel e que tinha dito que ficaria lá aquela noite.
Sozinho aproveitei para atravessar o bairro dos pescadores e continuar pela Langue de Barbarie para sul em direção à foz do rio. A foz era mais longe do que estava à espera e não cheguei nem perto. Depois voltei pela praia junto ao mar. Vi o pôr-do-sol e apressei-me para a casa do Daounda ao som do cântico das mesquitas anunciando a hora da oração (e o fim do jejum até ao próximo dia).

A refeição (um prato simples de massa) foi comida com toda a familia do Daounda. Depois do jantar ficamos algum tempo (demasiado) a ver televisão. Depois fomos dar umas voltas pelas ruas e visitar alguns amigos dele.
O Daounda falava frequentemente do seu trabalho e dos talibes que precisavam de ajuda e a dada altura deu-me um cartão de sócio da associação já com o meu nome a dizer que a partir daquele dia eu era "um amigo da associação"... e obviamente que devia contribuir com um donativo de acordo com as minhas possibilidades. Já antecipava que isto ia acontecer, todo o discurso do Daounda até aqui parecia ir na direcção de mais cedo ou mais tarde me pedir dinheiro, tirando isso quase não falava.
Apesar de ter algumas dúvidas sobre o verdadeiro destino do dinheiro (existia algo no Daounda que me fazia desconfiar, pequenas coisas mas não me lembro bem o quê) eu tinha sido convidado na casa do Daounda e ele realmente trabalhava com os talibe (tinha-me convidado a visitar a associação no dia seguinte, logo a associação devia existir) por isso dei-lhe uma pequena quantia.

Quando chegamos à casa dos amigos do Daounda eles estavam a beber cerveja e vinho. Quando as bebidas estavam quase a acabar o Daounda abriu a carteira, tirou o dinheiro que eu lhe tinha dado para as crianças e deu a um amigo dele para que fosse comprar mais bebidas. Ao ver o meu ar desconfiado disse que apenas deu aquele dinheiro porque não tinha outro na carteira naquele momento, mas que no dia seguinte daria à organização a quantidade de dinheiro que eu lhe tinha dado a ele. Não fiquei muito convencido...
Pensei que os amigos dele não ligassem muito à religião por estarem a beber ainda por cima em pleno Ramadão.
Eles explicaram-me que eram Baye Fall e que a sua forma de adorarem Allah era diferente, convidaram-me para ficar com eles e ver.
Passaram a noite a beber (vinho e cerveja) e a fumar (erva) enquanto rezavam e cantavam. As frases mais repetidas (as unicas das quais ainda me lembro) eram "La ilaha illa Allah" (Não existe nenhum Deus para além de Allah) e "Jerejef te Mamadou Bamba" (Obrigado Mamadou Bamba).
Apesar de se dizerem Baye Fall não se vestiam da mesma forma que os Baye Fall que se encontram na rua ( e nunca ouvi dizer que os Baye Fall bebessem alcoól), outra coisa estranha (por estas paragens) é que havia uma mulher com eles que era a namorada de um deles.
A certa altura um deles foi buscar uma moca de madeira e perguntou-me se eu sabia para que era aquilo. Disse que não e ele passou a exemplificar!
A moca servia para ele bater com força nas costas enquanto rezava. Convidou-me a fazer o mesmo (havia outra moca) mas eu recusei educadamente...
Ainda lá fiquei até por volta das duas da manhã mas depois voltei para o hostel para dormir.
No dia seguinte levantei-me cedo para viajar até Nouakchott, a capital da Mauritânia.

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