Em Toubakouta, ficamos alojados(Eu, o Julien e Mourad) no Keur Youssou. O campement está dividido em cabanas, com uma área comum onde são servidos refeições. Cada cabana é composta por um grande quarto com 4 camas e uma pequena casa de banho, o elemento de luxo fundamental era a grande ventoinha no tecto que era bastante eficaz (quando não falhava a luz).
A paisagem em redor de Toubakouta é espectacular, bem mais preservada do que em redor de Diofior ou Foundiougne, finalmente o Sine-Saloum como o tinha imaginado, com densas florestas de mangue bordejando as águas do estuário.
Os dias foram passados a passear pela aldeia e pela margem do estuário, a conversar com a população local e a nadar no estuário.
Almoçamos numa pequena loja onde a senhora fazia umas enormes sandes de carne com molho de cebola e limão.
Depois do almoço ainda tentei um passeio pelo mangue, mas a progressão é quase impossivel, o chão é de lama e coberto por raizes, a vegetação dificulta com o emaranhado de raizes. Na lama, haviam caranguejos e um tipo de peixes algo estranhos, andavam pelo solo e quando alguem se aproximava logo recuavam para dentro de buracos cavados na lama.
Encontrei uma paliçada estreita que se prolongava através do mangal uns 500 metros até um canal onde três pescadores pescavam à linha. Vê-los pescar foi incrivel, em poucos minutos apanharam um enorme número de peixes grandes, os peixes eram quase todos diferentes.
Mais tarde quase ao pôr-do-sol fomos de novo nadar para o estuário, ao entrarmos algumas crianças avisaram-nos que não era uma boa hora para nadar por causa das hienas.
Já tinhamos falado sobre hienas com algumas pessoas da aldeia, mas o que nos tinham dito tinha sido que existiam hienas nas florestas perto mas era muito raro que viessem até à aldeia e que isso só seria possivel de noite/madrugada e que as hienas tinham medo das pessoas e fugiam se vissem alguém.
Por isso não ligamos ao que as crianças tinham dito.
Estavamos na água há meia hora quando ouvimos um som como um latido/uivo seguido de outro parecido com um riso, o som tinha vindo da margem oposta do rio a cerca de 300 metros de nós. As crianças na margem começaram a gritar:
- Saiam da água! Vem aí as hienas!
Saímos da água e perguntámos se as hienas não tinham medo das pessoas, as crianças disseram que na água não têm medo, e que as hienas nadam muito bem, que um pescador de uma aldeia proxima tinha sido atacado no seu barco.
... Verdade ou mito, ficamos sem saber porque voltamos ao hostel onde jantamos um prato delicioso de barracuda. Não sabia, mas fiquei a saber que barracuda é um dos meus peixes preferidos. Estava mesmo bom, foi a melhor refeição de toda a viagem!
De Diofior a Foundiougne a distância não é muita em linha recta. No entanto como a estrada tem de contornar vários braços de rio a viagem torna-se longa. De facto tive que apanhar quatro transportes diferentes até chegar ao meu destino. Primeiro apanhei o autocarro até à estrada Dacar - Kaolack perto de Tatadem, depois um taxi 22 places (uma furgoneta adaptada ao transporte passageiros) até Fatick. Em Fatick apanhei uma scooter (até as scooters podem ser táxis e com a vantagem de não ser necessário esperar por mais passageiros para partir). Entre Fatick e Foundiougne dá para ter uma melhor percepção da imensidão do delta de Sine-Saloum. A estrada percorre um istmo entre braços de rio, planicies secas, pantanos cobertos de erva, mangais e bancos de lama. Ao fim de alguns quilómetros a estrada termina abruptamente num embarcadouro junto a meia dúzia de cabanas de pescadores cobertas de colmo. Foundiougne fica em frente do outro lado do rio Saloum que é necessário atravessar no ferry.
Enquanto esperava pelo ferry que não tardou demasiado deleitei-me a ver os pescadores reparando as suas redes de pesca, os caranguejos na lama, os peixes no rio e as garças que a poucos metros de mim pescavam a sua refeição.
Á minha espera do outro lado do rio estava o Pape Mody Sow que faz biscates e trabalha como percursionista. O Pape rapidamente explicou que tinha havido uma mudança de planos e que já não me hospedar na sua casa. A cerimónia de circuncisão dos primos dele estava a ser na casa da sua familia, e a casa estava cheia com os primos e os guardiães, no entanto convidou-me para ir lá jantar e ofereceu-se para procurar comigo um "campement" (hostel) onde ficar. A nossa primeira opção, o campement mais barato da vila estava cheio por isso acabei por ficar no Baobab sur Mer. Não foi uma má escolha, o espaço é agradavel, principalmente agardou-me a vista da esplanada junto ao rio/mar? debaixo do baobab que dá o nome ao establecimento.
Depois de pousar as minhas coisas e de darmos uma volta pela vila para ele me mostrar os principais pontos de interesse dirigimo-nos à casa dele onde a cerimónia da circuncisão decorria.
No espaço ao ar livre no exterior da casa existiam dois grupos de pessoas, distando cerca de 60 metros entre si, um formado principalmente por mulheres e crianças pequenas e outro exclusivamente por homens. Era neste grupo que estavam os rapazes que tinham sido circuncidados.
Vestiam roupas tradicionais brancas estavam acompanhados de outros rapazes novos que eram os seus irmãos, e riam alegremente sem parecer que estivessem a sentir qualquer dor. Perguntei a que horas tinham sido circuncidados, responderam-me que já tinham sido circuncidados à quase três semanas. Afinal a cerimónia da circuncisão demora mais do que aquilo que julgava.
Fiquei a saber que as vestes que eles usavam eram especialmente fabricadas de forma a que não fizessem fricção nem tocassem em nenhuma parte do pénis. Fiquei também a saber que os guardiães se vão revesando e que fazem companhia aos miudos que foram circuncisados dia e noite durante 1 mês.
Os miudos tem que ficar sentados sempre com as pernas afastadas, para não fazer fricção, o que atrasa a cicatrização e pode levar ao aparecimento de infecções, até a dormir tem que estar de pernas afastadas, se juntarem as pernas a dormir imediatamente vem alguém e as afasta (os guardiães fazem turnos para que haja sempre alguém acordado a vigiar os miudos).
Os guardiães são familiares e amigos da familia, mas nunca o pai, embora os miudos possam receber ocasionalmente a visita do pai. No entanto durante este mês os rapazes não podem falar com nenhum elemento da familia do sexo feminino. Passam o tempo a aprender cântigos que falam do que é ser um homem, quais as suas responsabilidades e o que tem que fazer com as mulheres.
Hoje em dia a circuncisão propriamente dita é feita por um médico ou enfermeiro e com aplicação de anestesia local. Além disso se houverem problemas compram pomada anti-séptica, o que é bem mais eficaz a evitar uma infecção grave que os remédios tradicionais usados antigamente.
Jantei com os guardiães e os rapazes (massa servida numa travessa e comida com as mãos) e depois disseram-me que a tradição é que quem visita uma cerimonia de circuncisão, deixar um presente para que os guardiães possam comprar comida para a vigilia. Deviam ter-me avisado antes de terem convidado, mas jantei e explicaram-me muitos aspectos da cerimónia, aprendi bastante, por isso não me custou tirar uma nota da carteira.
Ainda fiquei bastante a ouvir os cantigos e lengalengas conversar com os guardiães, que queriam saber como era a vida em Portugal, se havia emprego, se eu conhecia alguém que os pudesse contratar para a construção civil...
Já bastante tarde disse que ia para o hostel dormir. Quando cheguei ao campement conheci um grupo de três franceses bem humorados que me estavam a tentar convencer a ir à discoteca da vila onde havia uma festa nessa noite. Avisaram-me que era possivelmente a ultima oportunidade de ir a uma festa no Senegal antes de começar o Ramadão. Fiquei com pena de não ir mas estava mesmo muito cansado, por ser tarde, pela viagem que tinha feito, mas sobretudo pelo tempo todo que tive de esperar ao sol pelo autocarro/ taxi/ scooter/ barco, o sol deixa-me mole!
No dia seguinte quando acordei toda a gente que conhecia estava a dormir. Os franceses porque tinham ido para a discoteca, o Pape porque tinha ficado acordado toda a noite com os rapazes. Tomei o pequeno almoço com calma, na bela esplanada em frente ao rio, tudo com optimo aspecto, até o pacotinho de leite em pó para preparar. Dei um mergulho no rio em frente à esplanada onde tinha tomado o pequeno almoço e depois fui dar uma volta a pé.
Para voltar encontrei um senhor que me deu boleia na sua charrete puxada por uma mula.
Os franceses já tinham acordado e fiquei a saber que iam na mesma direcção que eu. Almoçamos juntos thiéboudieunne com diversos acompanhamentos incluindo um deliciosa molho de tamarindo e tivemos conversas muito interessantes. Depois do almoço percebemos que os tipos do Gâmbia que tinham combinado que nos davam boleia no autocarro deles já tinham partido sem nós.
Arranjámos um táxi e fomos juntos até Sokone, aí um dos franceses cujo nome não me lembro saiu para apanhar um transporte para Kaolack e eu, o Mourad e o Julien continuamos até Tabakouta.
Diofior é uma grande aldeia com cerca de 14000 habitantes no delta do Sine Saloum.
O meu anfitrião em Diofior foi o Moustapha Faye. O Moustapha é um Senegalês, natural de Difior e é o presidente Asufor, a mais importante agência de desenvolvimento da aldeia.
A Asufor participa em projectos muito diversificados, desde a construção do reservatório de água, a programas de alfabetização, obras de melhoramento do centro de saúde, criação de centro de acolhimento de crianças desfavorecidas, reflorestação do mangal e todo de iniciativas de apoio social.
Na altura em que me hospedou na sua casa, o Moustapha também hospedava uma professora francesa, que estava a fazer voluntariado para a Asufor durante um mês, ensinando um grupo de costureiras de uma cooperativa local a ler e escrever em francês. Ela convidou-me para a ir ajudar e acabei por servir de professor auxiliar nas aulas de francês e até improvisei uma aula de inglês a pedido das senhoras da cooperativa.
O resto do tempo tive conversas com o Moustapha e com a sua família e amigos. As refeições eram servidas da forma tradicional, sentados no chão em dois grupos, um de homens e outro de mulheres.
Sempre que ia dar uma volta pela aldeia, as crianças ficavam a olhar curiosas para mim e chamavam mais crianças, riam, acenavam e diziam tubab, tubab (tubab significa branco), se viam a máquina fotográfica pediam que lhes tirassem fotografias.
As pessoas da aldeia eram muito simpáticas e muitas tentavam meter conversa. As que eram da família do Moustapha (e não eram poucas na aldeia) convidavam-me logo para tomar um chã, o que implicava uma hora a conversar enquanto o bule aquecia na lareira. Tentei praticar as expressões em wolof que tinha aprendido em Dacar mas explicaram-me que em Diofior a maior parte das pessoas fala Serer e não Wolof, embora também saibam falar Wolof.
A maior parte dos edificios da aldeia são pouco mais que cabanas de madeira e colmo, embora existam os edificios mais importantes (mesquita, escola, centro de saúde, câmara municipal) e algumas das casa sejam de alvenaria e cimento.
A aldeia fica nas imediações do delta do Sine Saloum e estava curioso por visitar as margens do delta.
Da aldeia até á margem propriamente dita sao cerca de 3,5 km, da primeira vez que lá fui, fui sozinho, atravessei por entre baobabs (embondeiros) e palmeiras isolados, arrozais e pantanos, campos de milho e pastos onde pastores conduziam manadas de vacas escanzeladas. Da segunda vez o Moustapha trouxe-me com ele na mota. Foi agradavel mergulhar no delta, mas á parte disso a experiência ficou muito áquem das expectativas. Esperava uma floresta de mangal e numerosos bandos de aves pousando sobre as arvores, tudo o que vi foram bancos de areia e lama. Nesta parte do delta a floresta de mangal foi completamente destruida e com ela desapareceu a fauna.
O Moustapha diz-me que no entanto ainda há muito peixe mesmo aqui, porque o mangal continua saudavel alguns quilómetros mais abaixo e também que um projecto futuro da Asufor tentará reflorestar a parte do delta junto a Diofior.