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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Aves, répteis e pequenos animais do Senegal





Coracias da Abissínia
Em Diofior
Euplectes Franciscanus
Em Foundiougne
Merops bulocki
Em Wassadou


Uma das coisas que mais gostei no Senegal e Gâmbia foi a incrivel diversidade e cor das aves que lá existem. Em qualquer parte do país, é possivel observar muitas aves, mais diferentes e com mais cor do que as que estámos habituados a ver na Europa. Até em Dakar, basta ir até uma zona arborizada encontrar pássaros em abundância e há abutres nas lixeiras e mergulhões no porto junto aos barcos.
No blog mostro algumas aves que consegui fotografar, mas só consegui fotografias a uma pequena fracção das que vi, e só vi uma fracção muito pequena dos tipos de aves que aqui existem.
De facto existem 664 espécies de aves identificadas no Senegal, as aves marinhas são particularmente abundantes.
Nas regiões húmidas do delta do rio Senegal, no Sine Saloum, no Gâmbia e em Casamansa existem ilhas em que milhões de garças, pelicanos, corvos marinhos se juntam em enormes bandos.
Para ver mais fotos e informações sobre aves no Senegal e Gâmbia seguir os links:
http://www.oiseaux.net/birds/senegal.html
http://www.flickr.com/groups/birds-gs/pool/






Gosto de reparar em todo o tipo de animais, incluindo os répteis. Aqui estão alguns.
O tipo de lagarto mais comum no Senegal, o Agama com um acentuado dimorfismo sexual, em cima a fêmea acastanhada com manchas alaranjadas (na ilha de Gorée) e em baixo o macho negro/azulado com cabeça e cauda amarela (fotografado em Diofior).
Outro tipo de lagarto. (Fotografado em Dakar junto ao Farol de Mamelles).

Também vi alguns insectos diferentes, obviamente não os fotografei todos, nem ponho aqui mais fotografias para não aborrecer, mas deixo aqui estes exemplos.


Estas duas que se seguem são as nossas amigas aranhas que nos faziam companhia. A primeira encontrei-a no chão do meu quarto. A segunda encontrou-a o Mourad junto ao tecto do quarto dele. Além de serem bem grandes, também eram venenosas,ou pelo menos foi que nos disseram os funcionários do hostel.

Em Casamasa vi alguns animais que tinham umas dimensões fora do comum. Nas imagens um milipede, um daqueles "bichinhos pequeninos" com muitas pernas, só que este é bem mais longo e mais grosso que os meus dedos. Na outra imagem um gordo caracol quase do tamanho de uma mão, estes caracois eram muito abundantes nos jardins do meu hostel em Cap Skirring.

Um pequeno mamífero que fotografei junto ao farol de mamelles en Dakar, não sei o que é, será um esquilo ou um suricate? Não me parece nem uma coisa nem outra, mas se alguém souber avise para eu poder colocar aqui o nome correcto.

Eu sei que não é possivel ver quase nada nesta foto mas passo a explicar o que seria possivel ver se eu conseguisse fazer uma boa fotografia noturna.
A árvore na fotografia é uma mangueira junto ao meu quarto em Cap Skirring que tinha várias mangas nos seus ramos mais altos. Todas as noites esta mangueira era visitada por raposas voadoras, ou seja morcegos enormes do tamanho de gatos que vinham alimentar-se das mangas e faziam uma barulheira lutando entre si pelas mais maduras.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Cap Skirring





Acordei para uma dia sem viagens loucas de táxi nem peripécias malucas, apenas um dia relaxado de praia, a nadar e a descansar à sombra dos coqueiros.



No entanto aborreci-me ao fim de algum tempo e fui dar uma volta a pé até... à Guiné-Bissau!
Não é assim tao longe! Tinham-me dito que do "Le Paradise" fronteira são apenas 5 km.
Nos primeiros 2,5 quilómetros até Kabrouse a praia é orlada de jardins dos diveros "campements" e aldeamentos turísticos, no entanto (talvez por ser época baixa) não se vêem turistas quase nenhuns. Depois de Kabrousse há umas dunas e uns baldios arborizados. As dunas vão ficando mais baixas e os baldios dão lugar a campos de milho e arrozais. Passei um posto de vigia abandonado e encontrei uma manada de vacas à beira mar juntamente com os seus pastores, duas crianças que não deviam ter mais de 7 anos. Perguntei-lhes se ali já era a Guiné-Bissau, mas elas não falavam françês nem português (experimentei também em português, pelo sim, pelo não).
A uma dada altura notei que estava num cabo e que a partir daí a linha de costa tomava uma direcção completamente diferente. Continuei a andar, voltaram a existir dunas e para lá das dunas em vez de arrozais agora existiam mangais e um canal.
Já tinha andado bastante, não sabia se estava na Guiné-Bissau, nem sabia se estar na Guiné era uma boa ideia... queria só caminhar até à fronteira e voltar para trás, não sabia se era preciso visto para entrar no país, não tinha identificação nenhuma, só tinha uns calções e uma t-shirt. Dei meia volta e comecei a regressar.
Mais tarde, com a ajuda do Google Earth revi o meu trajecto, de facto tinha passado a linha imaginária de fronteira, mas estava numa parte da Guiné separada do resto do país por um canal e nesta parte da Guiné-Bissau não existe nenhuma aldeia por isso, e porque só é acessivel por terra a partir do Senegal não existe nenhum tipo de controlo ou fronteira física visivel.



No meu caminho de volta ao hostel reparei numa pequena cabana nas dunas (entre Kabrousse e Cap Ski) com um pequeno jardim, umas mesas e umas cadeiras.
A cabana era cheia de personalidade, totalmente assimétrica e no entanto harmoniosa, construida com folhas de palmeira e madeira e outras coisas que deram á costa e foram recolhidas. No jardim cada pequeno arbusto era rodeado por uma círculo de seixos. Existiam diversos "vasos" que podiam ser garrafões de água ou pneus ou velhos cestos de vime.
Á porta estava um homem com os seus 30 anos e ar de apreciador de reggae, com dreadlocks longos e barrete com as cores da bandeira da Etiópia.
- Entra "mon ami". Queres comer?
Entrei com curiosidade, a cabana tinha uma zona aberta sem paredes mas com um tecto de folhas de palmeira onde estavam as mesas e as cadeiras, uma pequenissíma divisão onde existia um fogão a gás (daqueles que se levam para acampar), panelas e um armário com loiça, e outra divisão com uma grande cama de rede com um colchão por cima e algumas roupas dobradas em cima de umas tábuas.
Aquela cabana era a casa daquele homem, e também o restaurante no qual ele servia refeições aos turistas que passavam, mas pelo espaço e loiça que tinha não dava para servir mais de 7 ou 8 pessoas de cada vez. Atrás da cabana existia uma pequena horta onde o homem cultivava batatas, pimentos, tomates e mais alguns vegetais.
Perguntei o que era o almoço e quanto custava.
- O que queres comer?
- Não sei, o que há?
- Aquele ali - disse apontando um homem na praia com uma cana de pesca - é meu irmão, ainda não apanhou nada, mas se não te importares de esperar um pouco, posso grelhar um peixe que ele pescar, senão posso ir ao mercado comprar. E para acompanhar posso fazer arroz, e uma salada.
- Parece-me bem, e qual é o preço?
- Quanto queres pagar?
Disse um preço que me pareceu justo, e ele aceitou.
Pedi que fizesse o arroz sem refogado porque estava um pouco enjoado, a água da torneira que tinha bebido no Gâmbia ou o bissap que tinha bebido pelo caminho não me tinham feito bem.
Fui ao meu hostel buscar a carteira e uma garrafa de água, a água que ele tinha vinha de um poço e apesar dele beber, eu preferi não arriscar desta vez (afinal ainda estava a recuperar da água do dia anterior).
Cheguei, ele ainda estava a cozinhar, convidou-me a ir deitar-me a descansar enquanto esperava mas preferi ficar a falar com ele enquanto cozinhava.
O irmão tinha apanhado dois grandes peixes que não sei o que eram (sabiam a robalo) que ele estava a grelhar sobre as brasas.
Surpeendeu-me o aspecto final, serviu-me a comida numa loiça de aspecto sofisticado e com a distribuição dos elementos no prato (arroz, peixe, salada, limão) notavelmente cuidada, talheres e copo elegantes e um guardanapo muito bem dobrado.
Notando a minha supresa explicou que já tinha trabalhado em diversos hoteis. Sentou-se e ficou a fazer-me companhia enquanto comia. Falámos sobre a vida no Senegal e em Portugal.
Depois de comer fiquei a preguiçar numa cama de rede pendurada entre dois troncos ao lado da cabana á sombra de uma palmeira.
Não fiz nada a tarde toda a não ser nadar e descansar.
Á noite chegaram o Mourad e o Julien, quando nos despedimos em Toubakouta, tinhamos combinado voltar a encontrar-nos aqui em Cap Skirring.

*Todas as fotos são da praia junto ao hostel e não das que visitei até à Guiné-Bissau, não quis levar máquina fotográfica por isso não tenho nenhuma foto do que descrevo...

domingo, 2 de janeiro de 2011

Toubacouta






Em Toubakouta, ficamos alojados(Eu, o Julien e Mourad) no Keur Youssou. O campement está dividido em cabanas, com uma área comum onde são servidos refeições. Cada cabana é composta por um grande quarto com 4 camas e uma pequena casa de banho, o elemento de luxo fundamental era a grande ventoinha no tecto que era bastante eficaz (quando não falhava a luz).
A paisagem em redor de Toubakouta é espectacular, bem mais preservada do que em redor de Diofior ou Foundiougne, finalmente o Sine-Saloum como o tinha imaginado, com densas florestas de mangue bordejando as águas do estuário.
Os dias foram passados a passear pela aldeia e pela margem do estuário, a conversar com a população local e a nadar no estuário.
Almoçamos numa pequena loja onde a senhora fazia umas enormes sandes de carne com molho de cebola e limão.
Depois do almoço ainda tentei um passeio pelo mangue, mas a progressão é quase impossivel, o chão é de lama e coberto por raizes, a vegetação dificulta com o emaranhado de raizes. Na lama, haviam caranguejos e um tipo de peixes algo estranhos, andavam pelo solo e quando alguem se aproximava logo recuavam para dentro de buracos cavados na lama.cabana no hostel
Encontrei uma paliçada estreita que se prolongava através do mangal uns 500 metros até um canal onde três pescadores pescavam à linha. Vê-los pescar foi incrivel, em poucos minutos apanharam um enorme número de peixes grandes, os peixes eram quase todos diferentes.
Mais tarde quase ao pôr-do-sol fomos de novo nadar para o estuário, ao entrarmos algumas crianças avisaram-nos que não era uma boa hora para nadar por causa das hienas.
Já tinhamos falado sobre hienas com algumas pessoas da aldeia, mas o que nos tinham dito tinha sido que existiam hienas nas florestas perto mas era muito raro que viessem até à aldeia e que isso só seria possivel de noite/madrugada e que as hienas tinham medo das pessoas e fugiam se vissem alguém.mangal na mare baixa
Por isso não ligamos ao que as crianças tinham dito.
Estavamos na água há meia hora quando ouvimos um som como um latido/uivo seguido de outro parecido com um riso, o som tinha vindo da margem oposta do rio a cerca de 300 metros de nós. As crianças na margem começaram a gritar:
- Saiam da água! Vem aí as hienas!


Saímos da água e perguntámos se as hienas não tinham medo das pessoas, as crianças disseram que na água não têm medo, e que as hienas nadam muito bem, que um pescador de uma aldeia proxima tinha sido atacado no seu barco.
... Verdade ou mito, ficamos sem saber porque voltamos ao hostel onde jantamos um prato delicioso de barracuda. Não sabia, mas fiquei a saber que barracuda é um dos meus peixes preferidos. Estava mesmo bom, foi a melhor refeição de toda a viagem!

Foundiougne






De Diofior a Foundiougne a distância não é muita em linha recta. No entanto como a estrada tem de contornar vários braços de rio a viagem torna-se longa. De facto tive que apanhar quatro transportes diferentes até chegar ao meu destino. Primeiro apanhei o autocarro até à estrada Dacar - Kaolack perto de Tatadem, depois um taxi 22 places (uma furgoneta adaptada ao transporte passageiros) até Fatick. Em Fatick apanhei uma scooter (até as scooters podem ser táxis e com a vantagem de não ser necessário esperar por mais passageiros para partir). Entre Fatick e Foundiougne dá para ter uma melhor percepção da imensidão do delta de Sine-Saloum. A estrada percorre um istmo entre braços de rio, planicies secas, pantanos cobertos de erva, mangais e bancos de lama. Ao fim de alguns quilómetros a estrada termina abruptamente num embarcadouro junto a meia dúzia de cabanas de pescadores cobertas de colmo. Foundiougne fica em frente do outro lado do rio Saloum que é necessário atravessar no ferry.
Enquanto esperava pelo ferry que não tardou demasiado deleitei-me a ver os pescadores reparando as suas redes de pesca, os caranguejos na lama, os peixes no rio e as garças que a poucos metros de mim pescavam a sua refeição.
Á minha espera do outro lado do rio estava o Pape Mody Sow que faz biscates e trabalha como percursionista. O Pape rapidamente explicou que tinha havido uma mudança de planos e que já não me hospedar na sua casa. A cerimónia de circuncisão dos primos dele estava a ser na casa da sua familia, e a casa estava cheia com os primos e os guardiães, no entanto convidou-me para ir lá jantar e ofereceu-se para procurar comigo um "campement" (hostel) onde ficar. A nossa primeira opção, o campement mais barato da vila estava cheio por isso acabei por ficar no Baobab sur Mer. Não foi uma má escolha, o espaço é agradavel, principalmente agardou-me a vista da esplanada junto ao rio/mar? debaixo do baobab que dá o nome ao establecimento.
Depois de pousar as minhas coisas e de darmos uma volta pela vila para ele me mostrar os principais pontos de interesse dirigimo-nos à casa dele onde a cerimónia da circuncisão decorria.
Cerimónia de circuncisão
No espaço ao ar livre no exterior da casa existiam dois grupos de pessoas, distando cerca de 60 metros entre si, um formado principalmente por mulheres e crianças pequenas e outro exclusivamente por homens. Era neste grupo que estavam os rapazes que tinham sido circuncidados.

Vestiam roupas tradicionais brancas estavam acompanhados de outros rapazes novos que eram os seus irmãos, e riam alegremente sem parecer que estivessem a sentir qualquer dor. Perguntei a que horas tinham sido circuncidados, responderam-me que já tinham sido circuncidados à quase três semanas. Afinal a cerimónia da circuncisão demora mais do que aquilo que julgava.
Fiquei a saber que as vestes que eles usavam eram especialmente fabricadas de forma a que não fizessem fricção nem tocassem em nenhuma parte do pénis. Fiquei também a saber que os guardiães se vão revesando e que fazem companhia aos miudos que foram circuncisados dia e noite durante 1 mês.
Os miudos tem que ficar sentados sempre com as pernas afastadas, para não fazer fricção, o que atrasa a cicatrização e pode levar ao aparecimento de infecções, até a dormir tem que estar de pernas afastadas, se juntarem as pernas a dormir imediatamente vem alguém e as afasta (os guardiães fazem turnos para que haja sempre alguém acordado a vigiar os miudos).
Os guardiães são familiares e amigos da familia, mas nunca o pai, embora os miudos possam receber ocasionalmente a visita do pai. No entanto durante este mês os rapazes não podem falar com nenhum elemento da familia do sexo feminino. Passam o tempo a aprender cântigos que falam do que é ser um homem, quais as suas responsabilidades e o que tem que fazer com as mulheres.
Hoje em dia a circuncisão propriamente dita é feita por um médico ou enfermeiro e com aplicação de anestesia local. Além disso se houverem problemas compram pomada anti-séptica, o que é bem mais eficaz a evitar uma infecção grave que os remédios tradicionais usados antigamente.
Pequeno almoço com vista
Jantei com os guardiães e os rapazes (massa servida numa travessa e comida com as mãos) e depois disseram-me que a tradição é que quem visita uma cerimonia de circuncisão, deixar um presente para que os guardiães possam comprar comida para a vigilia. Deviam ter-me avisado antes de terem convidado, mas jantei e explicaram-me muitos aspectos da cerimónia, aprendi bastante, por isso não me custou tirar uma nota da carteira.
Ainda fiquei bastante a ouvir os cantigos e lengalengas conversar com os guardiães, que queriam saber como era a vida em Portugal, se havia emprego, se eu conhecia alguém que os pudesse contratar para a construção civil...
Já bastante tarde disse que ia para o hostel dormir. Quando cheguei ao campement conheci um grupo de três franceses bem humorados que me estavam a tentar convencer a ir à discoteca da vila onde havia uma festa nessa noite. Avisaram-me que era possivelmente a ultima oportunidade de ir a uma festa no Senegal antes de começar o Ramadão. Fiquei com pena de não ir mas estava mesmo muito cansado, por ser tarde, pela viagem que tinha feito, mas sobretudo pelo tempo todo que tive de esperar ao sol pelo autocarro/ taxi/ scooter/ barco, o sol deixa-me mole!
Charrete
No dia seguinte quando acordei toda a gente que conhecia estava a dormir. Os franceses porque tinham ido para a discoteca, o Pape porque tinha ficado acordado toda a noite com os rapazes. Tomei o pequeno almoço com calma, na bela esplanada em frente ao rio, tudo com optimo aspecto, até o pacotinho de leite em pó para preparar. Dei um mergulho no rio em frente à esplanada onde tinha tomado o pequeno almoço e depois fui dar uma volta a pé.
Para voltar encontrei um senhor que me deu boleia na sua charrete puxada por uma mula.
Os franceses já tinham acordado e fiquei a saber que iam na mesma direcção que eu. Almoçamos juntos thiéboudieunne com diversos acompanhamentos incluindo um deliciosa molho de tamarindo e tivemos conversas muito interessantes. Depois do almoço percebemos que os tipos do Gâmbia que tinham combinado que nos davam boleia no autocarro deles já tinham partido sem nós.
Arranjámos um táxi e fomos juntos até Sokone, aí um dos franceses cujo nome não me lembro saiu para apanhar um transporte para Kaolack e eu, o Mourad e o Julien continuamos até Tabakouta.
Julien, Mourad e Sebastien? e a nossa thiéboudieunne

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ilha de Gorée

Ilha de Gorée ou Ilha de Goreia
Gorée é uma pequena ilha, três quilómetros a este de Dakar.
Para ir a Gorée apanha-se o ferry no porto de Dakar e ao fim de 30 minutos de viagem desembarcámos noutro mundo. Enquanto que Dakar é cheia de caos, trânsito e stress, em Gorée não há asfalto nem carros e a vida corre devagar.
A ilha é pequena em tamanho (900 metros por 350) mas rica em história.
Os portugueses foram os primeiros a fixar-se na ilha em 1444, a ilha foi capturada pelos holandeses em 1588, reconquistada pelos portugueses, voltada a ocupar pelos holandeses, tomada pelos ingleses em 1664, capturada pelos franceses em 1677, tendo continuado quase sempre sob domínio francês até 1960, data de independência do Senegal, ainda assim com alguns breves períodos de domínio inglês durante as guerras anglo-francesas, notavelmente entre 1758 e 1763. Monumento aos escravos oferecido por Guadalupe
As diferentes potências europeias que ocuparam a ilha foram construindo as mansões coloniais que ocupam a ilha (segundo um habitante local as construções na ilha foram pintadas de acordo com o povo que as construiu e as amarelas incluindo a igreja teriam sido construídas pelos portugueses, infelizmente não encontrei nenhuma fonte de informação mais fidedigna que me pudesse confirmar ou desmentir essa crença).
A ilha é conhecida como ponto estratégico no comércio trans-atlântico de escravos e é frequentemente visitada por cidadãos de ascendência africana buscando aqui as suas raízes.
A "Maison des Esclaves" construída nos anos 1780 é o edifício histórico da ilha que melhor representa a tragédia da diáspora africana. Neste local, (o último dos centros de comércio de escravos da ilha)hoje em dia um museu, os escravos, chegados de outras partes do Senegal, eram contados, pesados e separados por idade, sexo e condição física antes de serem embarcados para o novo mundo.
Cada uma das celas com cerca 2,60 por 2,60 metros albergava entre 15 a 20 pessoas com os pescoços e pulsos acorrentados. Eram desacorrentados apenas uma vez por dia para fazerem as suas necessidades e se alimentarem. As condições de higiene eram precárias e a espera pelo navio que os levaria a atravessar o Atlântico podia durar até três meses. As famílias eram separadas e era possível que o pai fosse vendido no Brasil, a mãe no Haiti e os filhos no sul dos Estados Unidos, tudo dependia dos compradores interessados.
Apesar de célebre, a importância de Gorée no tráfico de escravos é sobre valorizada, apenas algumas centenas de escravos eram "processadas" aqui em cada ano o que é pouco comparado com os milhares de escravos que partiam de localizações como St. Louis ou Banjul, na foz dos grandes rios Senegal e Gâmbia, importantíssimos neste comércio.arte ao ar livre
A história da ilha é pesada, mas o ambiente fora da "maison des esclaves" é feliz e relaxado.
A ilha é frequentada tanto por turistas como por habitantes de Dacar que vem para usufruir um dia na praia de águas límpidas. As antigas casas senhoriais têm varandas e pátios ajardinados, as ruas são ladeadas de buganvilias e nas praças existem bancos de madeira onde se pode descansar á sombra dos baobabs. Junto á praia existem algumas pequenas pensões e é possível almoçar na esplanada de diversos restaurantes com vista para a baía. Por toda a ilha artesãos e artistas expõem o seu trabalho, é como uma enorme galeria de arte ao ar livre.
Conheci alguns desses artistas quando fui dar uma volta pela ilha, todos eles se mostraram contentes em mostrar as suas obras e a forma como trabalham. A maioria tenta complementar a venda e produção de artesanato com outras actividades sejam essas criação de gado, agricultura de subsistencia ou venda de "erva" aos turistas.Praia em Gorée

Passei algum tempo a conversar com alguns dos artesãos que me convidaram para tomar chá e ficaram surpreendidos por eu ser capaz de identificar as plantas que eles cultivavam (feijões e milho). Terminei a tarde na praia e voltei a Dacar a tempo do jantar.Praia em Gorée